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Suzane Jardim: “É uma obrigação dos movimentos sociais pensarem a questão racial para além dos meses temáticos e datas simbólicas”

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Historiadora, blogueira e ativista, Suzane Jardim, fala sobre a importância do Novembro Negro e sobre questões raciais

No dia 20 de novembro do ano de 1695 era assassinado Zumbi dos Palmares, que deixou um legado de luta pela liberdade do seu povo. Mais de 300 anos se passaram para que em 2003 a data entrasse oficialmente nas efemérides do calendário escolar, prestando a justa e simbólica homenagem.

Desde então, o Novembro Negro passou a ser mais um mês de luta do povo negro do Brasil, dos 12 meses que passa lutando, ainda hoje por liberdade, igualdade e para manter-se vivo.

Segundo o Mapa da Violência 2017, a cada 100 homicídios praticados no Brasil, 71 são de pessoas negras, a maioria homens, jovens e moradores das periferias. Sem falar da multidão negros e negras encarceradas pelo sistema prisional brasileiro: mais de 380 mil, o que representa 61, 6% do total. Recentemente, o caso do carioca Rafael Braga ganhou visibilidade e revelou uma situação de racismo institucional já conhecida pela grande maioria da população negra do país.

Em entrevista ao site do MST, a historiadora, blogueira e ativista negra Suzane Jardim fala sobre a grave situação do genocídio da população negra, a importância do Novembro Negro e os desafios para o enfrentamento das questões raciais no Brasil. E faz um chamado: “é preciso que caminhemos para uma unidade onde essas questões possam ser pautadas de um modo mais incisivo por todos os setores que se preocupam com o avanço social e os direitos humanos”.

Leia a entrevista:

Suzane, o que representa esse mês de novembro para a luta do povo negro do Brasil?

O Novembro Negro representa uma iniciativa de contraponto às narrativas da história oficial sobre a questão negra brasileira. Nossa república tentou fixar o 13 de maio, dia da assinatura da Lei Áurea, como a data comemorativa da população negra por excelência. Entretanto, a comemoração oficial da data sempre carregou uma falsa narrativa de heroísmo e benevolência, focada na figura da Princesa Isabel, de modo que mascarava os conflitos raciais do país, invisibilizava os terrores do processo escravista e as resistências a ele, ao mesmo tempo que reforçava os discursos sobre uma suporta democracia racial. Transformar novembro em um mês de discussão sobre a negritude e de reflexão sobre racismo, trajetórias e atualidades, quebra com a lógica anterior e traz visibilidade às lutas constantes de todos os negros do país.

O recente caso de Rafael Braga ganhou grande repercussão nacional e desmascarou uma situação de racismo institucional no Brasil, muitas vezes negada. Porque outros tantos casos como este permanecem desconhecidos?

O caso do Rafael é extremamente sintomático em diversos níveis. Ouso dizer que seu caso só se tornou conhecido porque a primeira prisão aconteceu justamente em um contexto de protesto, o que facilitou para que o associassem a um ‘preso político’, tal qual o termo é empregado pelos meios da esquerda, expandindo assim a discussão sobre repressão aos movimentos sociais e racismo do sistema repressivo. Sua segunda prisão, que ocorreu após uma suporta apreensão de uma quantidade pequena de drogas, e que resultou em sua condenação a mais de 11 anos em regime fechado, foi a repetição de um fato cotidiano em todas as periferias do país e que, até então, não chamava a atenção, não era digno de nota por grande parte dos movimentos sociais, sendo foco da luta de movimentos negros, advogados ativistas e grupos periféricos isolados. O jovem negro que é preso todos os dias nas periferias não era considerado um preso político em uma visão de mundo que ignorava que o racismo institucional da justiça repressiva e punitiva é de fato um projeto político que atinge sujeitos muito bem delimitados. As movimentações pela liberdade de Rafael conseguiram levar para outras instâncias do movimento social a discussão sobre o estado de exceção permanente em que vivem os jovens negros pobres do país e isso, por certo, é um avanço. Porém, ainda há muito a ser feito para que se compreenda que é impossível lutar por uma sociedade igualitária e justa sem que se paute com seriedade o racismo estrutural, o problema do encarceramento e a guerra às drogas que vem aniquilando nossos jovens há anos.

Quando você diz aniquilando, você se refere à gravíssima situação de genocídio da juventude negra no Brasil?

Creio que a questão do genocídio da população negra não é uma questão separada de casos como os de Rafael Braga são fases de um mesmo problema. O genocídio da população negra não se dá apenas com a literal morte de nossos jovens pelas forças policiais, mas também por uma série de iniciativas institucionalizadas que permitem que o negro continue ocupando a posição do ‘outro’ na sociedade, facilitando assim seu extermínio. O encarceramento é uma ferramenta importante desse genocídio. A maioria da malha carcerária do país é formada por jovens negros, pobres, de baixa escolaridade, réus primários e presos por pequenos roubos ou por porte de pequenas quantidades de drogas, o que é um retrato da supervigilância e das prioridades econômicas e políticas da prisão, que visa prender o pobre para controlá-lo, tirar dele sua potência social e fingir que está resolvendo um problema de segurança, enquanto o que realmente faz é trancafiar e tirar de circulação os que escancaram o real problema, a desigualdade.

O jovem negro que é acusado de um crime, tem sua vida marcada, perde as possibilidades de futuro e é considerado um pária social. Sua morte é justificada, até mesmo celebrada pela população e suas chances de sair da pobreza e da precariedade se elevam em um ciclo que mantém os índices de criminalidade inalterados e não soluciona os problemas sociais que os geram. Acredito que o debate sobre o genocídio da população vem avançando com a denúncia sistemática feita por moradores e mães de jovens que enfrentam situações de violência e morte corriqueiramente, além de trazer a tona o questionamento sobre a quem serve o direito penal e qual a real eficácia do sistema de segurança pública vigente.

Como você vê a convivência das organizações políticas, partidos, movimentos sociais em geral, com a questão racial?

Historicamente, existe uma tendência dos movimentos sociais de considerarem a questão negra menos importante ou como uma questão pontual a ser trabalhada em segundo plano diante das questões de classe. O caso é que em uma sociedade onde o racismo é estrutural e estruturante, raça e classe não estão dissociados e jamais estarão, sendo assim impossível pensar os elementos isoladamente.

Além da histórica negação desse fato, penso que a dificuldade das demais organizações em pensarem a questão negra com seriedade vem da concepção de que o racismo seria um problema do negro e caberia a ele resolver e tratar sobre o assunto. Obviamente a pessoa negra tem mais facilidade e certa propriedade para falar das dores que sofre, entretanto, o racismo não foi criado pelo negro, e se persiste, é porque se mantém sendo praticado inclusive em ordens de poder, onde os negros permanecem com pouco ou nenhum acesso.

Mesmo os grupos que vêm pautando a questão costumam deixar tudo nas mãos de seus coletivos negros, não se engajando por completo na questão, repetindo essa tendência de deixar que o racismo seja resolvido pelo negro, enquanto ignora que a população não-negra é parte da sociedade que se privilegia com a estrutura racista.

Como você acredita que deve ser a contribuição dos diferentes movimentos sociais, como o MST, nessa luta?

É preciso que caminhemos para uma unidade onde essas questões possam ser pautadas de um modo mais incisivo por todos os setores que se preocupam com o avanço social e os direitos humanos. A máxima que diz que “quando as vidas negras importam, todas as vidas importam” tem que ser colocada como um mantra entre todos, pois a resolução da realidade que acomete a população negra acarretaria em uma melhoria de vida para os demais grupos vulneráveis, provocando mudanças que impactam diretamente o sistema.

Considero que, mais do que um dever, é uma obrigação dos movimentos e organizações pensarem a questão racial para além dos meses temáticos e datas simbólicas, para além do famoso “chamar o companheiro negro para falar sobre o assunto por cinco minutos em um evento geral”. Há de se pensar qual a responsabilidade de cada grupo e indivíduo na manutenção desse sistema e como é possível se responsabilizar por isso de modo que novas alternativas, uniões e possibilidades sejam criadas.

Além de negra, ser mulher é um agravante para essa realidade de opressão?

Vivemos em uma sociedade que, além de classista e racista, é também patriarcal desde sua formação. As questões de gênero estão intrinsecamente ligadas aos jogos de poder e de dominação. Diversas pesquisas e estatísticas mostram que as mulheres negras formam a base da pirâmide social sendo sujeitas a uma série de violências que perpassam as linhas da pobreza, do racismo e da misoginia. Não há como negar que os fatores de cor e classe são elementos que definem a vulnerabilidade dessa mulher diante dessas violências, sua facilidade em conseguir atenção e apoio, assim como a valorização de sua própria vida.

Como você avalia a representação da população negra nos meios de comunicação do Brasil?

As críticas sobre a até então inexistente ou apenas estereotipada representação negra nas mídias brasileiras são antigas e foram levadas pelo movimento negro para vários setores, sejam os militantes, acadêmicos e até mesmo no campo popular. Costumo dizer que considero que vivemos em um momento de transição, no qual os meios de comunicação, marcas e empresas já têm certa percepção dessas críticas e perceberam que, com o advento das redes sociais, a má representação, ou a ausência dela, causa um impacto negativo que circula e gera consequências. Devido a esse fato, temos visto nos últimos anos um crescimento na representação dos negros em produções audiovisuais, campanhas publicitárias, capas de revistas e afins. Entretanto, tendo a considerar que esse é um percurso inevitável dentro de um sistema capitalista, que busca expandir seu nicho cada vez mais. Não nego jamais a relevância que essa representação tem no psicológico da população negra, principalmente entre as crianças, que podem então se reconhecer e vislumbrar possibilidades para si que antes eram negadas, mas a representação sem mudanças políticas em outras áreas não pode ser um fim em si para a luta. É necessário que nossas crianças possam sonhar, mas que tenham condições materiais e sociais de realizarem seus sonhos, que possam, por exemplo, chegar vivas à idade adulta para que isso aconteça.

Suzane Jardim é bacharela e licenciada em História pela Universidade de São Paulo, educadora e pesquisadora em dinâmicas raciais com particular interesse na área da criminologia. Foi articuladora e participante ativa das Ocupações Pretas na USP, assim como uma entre as diversas pessoas que se mobilizaram para a criação da campanha 30 Dias por Rafael Braga.
Com informações: http://www.mst.org.br/

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Espetáculo “Ô Inho… E Eu?” aborda a violência contra mulher em diversos extratos sociais

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A peça teatral trata também da auto estima feminina e o silenciamento sofrido pelas mulheres no dia a dia. Entrada é gratuita

 

O espetáculo Ô Inho… E eu?, que tem como base a violência contra a mulher no planeta, será apresentado no próximo dia 23, às 19 horas, no Centro de Estudos dos Povos Afro-Índio-Americanos – CEPAIA Cultural. O centro está localizado na Rua do Passo, 4, Santo Antônio Além do Carmo e a entrada é gratuita.

“Ô Inho… e eu?” tem o objetivo de refletir a opressão que silencia metade das mulheres agredidas

A proposta é uma reflexão sobre a manifestação de relações de poder historicamente desiguais entre homens e mulheres que conduziram a dominação à discriminação e impedem, até hoje, o pleno avanço das mulheres, um fato cotidiano em todo o mundo.

O nome da peça é um questionamento que mulheres de diversos extratos sociais em situações diversas fazem a si mesmo, ao verem questionadas suas opções, sentimentos e conflitos. “Ô Inho… e eu?” tem o objetivo de refletir a opressão que silencia metade das mulheres agredidas, que, segundo estatísticas, não denunciam ou pedem ajuda. A peça discute também a auto-estima e a valorização feminina.

O espetáculo integra a programação do Novembro Negro, promovido pela UNEB, através do Centro de Estudos dos Povos Afro-Índio-Americanos – CEPAIA- Cultural e do Projeto Universidade Para Todos – UPT. O tema central de 2018 é “Reconhecimento e Educação para Igualdade”, seguindo a Década Internacional do Afrodescendente da Organização das Nações Unidas – ONU.

Durante todo o mês serão promovidas atividades de teatro, poesia, artes visuais, capoeira, fotografia e cinema.Em todos os eventos haverá debates e discussões sobre a questão da igualdade racial.

SERVIÇO

O quê: Espetáculo: Ô Inho… e eu?

Quando: 23 de novembro, às 19 horas

Onde: Rua do Passo, 4 – Santo Antônio Além do Carmo, em frente à Igreja do Carmo (Instituto Estive Biko)

Direção: Rafael Manga

Elenco: Alan Luís, Diane Rebouças, Lívia Ferreira ,Marcelo Teixeira, Marisa Andrade, Silvânia, Rita Santiago

Mais informações: 71 99242-1505

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MP da privatização da água é barrada na Câmara dos Deputados

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Parlamentares da oposição e entidades do setor do saneamento conseguiram impedir votação nesta terça-feira (13/11)

 

Os movimentos em defesa da água conquistaram importante vitória nesta terça-feira (13/11), ao impedir a votação da Medida Provisória 844/18, conhecida como MP da privatização da água. A obstrução dos partidos da oposição, impediu que a medida entrasse em votação durante a sessão deliberativa extraordinária de hoje.

“Essa é a primeira grande derrota do consórcio Temer/Bolsonaro; a obstrução da oposição, em especial a do PT, foi que organizou essa grande vitória”, comemorou o deputado federal Afonso Florence, que integrou a comissão mista responsável por avaliar a MP 844 e esteve à frente das negociações com os líderes do governo, Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) e André Moura (PSC-SE), e o ministro das cidades Alexandre Baldy.

Após sucessivas rodadas de negociação entre governo e oposição, não foi possível chegar a uma proposta de consenso e foi mantida a obstrução. Como a medida perde a validade na próxima segunda-feira (19/11) e o governo reconheceu que não conseguiria derrubar a obstrução posta pelo PT, resolveu sequer ler a MP.

Ao longo dos últimos meses, entidades que atuam no setor do saneamento como a Associação Brasileira de Empresas Estaduais de Saneamento (AESB), Associação Brasileira de Serviços Municipais de Saneamento (ASSEMAE), a  Federação Nacional dos Urbanitários (FNU), a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), a Frente Nacional de Prefeitos (FNP), a Associação Brasileira de Municípios (ABM) e a Federação Interestadual de Sindicato de Engenheiros (Fisenge), trabalharam pela derrubada da MP.

A medida também enfrentou oposição de governadores. Vinte e dois deles assinaram documento contrário à MP 844, o que contribuiu muito para mobilização pela derrubada.

Na avaliação dos especialistas, a medida traria aumento de tarifas e diminuição da qualidade dos serviços. Entre os pontos polêmicos, estava o Artigo 10-A, dispositivo que acabava com o subsídio cruzado. Na legislação vigente, esse mecanismo permite que empresas de saneamento invistam nos municípios pequenos, e equilibrem sua tarifa a partir da receita obtida nos municípios superavitários.

Para isso, a medida obrigava a abertura de chamada pública para empresas privadas, para prestação do serviço de água e esgoto. “Assim, nos grandes municípios, as empresas privadas é que operariam os sistemas  e aumentariam a tarifa buscando lucro. Nos pequenos municípios as empresas estaduais continuariam operando, sem a possibilidade de usar o subsídio cruzado, e as tarifas também seriam majoradas”, explicou Florence.

Toda essa disputa foi acompanhada de perto pelo grupo de transição de Bolsonaro.  Agora, esta importante derrota do governo Temer coloca em alerta o governo Bolsonaro que quer aprovar, ainda este ano, algumas das suas medidas impopulares, como a Reforma da Previdência.

Fotos: Gustavo Bezerra / PT na Câmara

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“Bolsonaro ama os homossexuais, mas não podemos aceitar minorias”, dispara Irmão Lázaro

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O deputado federal Irmão Lázaro (PSC) entoou canções evangélicas durante o ato pro-Bolsonaro no Farol da Barra, na manhã deste domingo (21).

“Meu coração é do meu mestre”, disse o parlamentar. “Na quinta-feira estive na casa de Jair Bolsonaro e ele está bem. Não fui conversar com ele sobre cargos ou posição na política, porque isso não me interessa. Fui falar sobre vocês”, discursou.

O baiano atacou o movimento LGBT. “Essa ideologia de gênero será banida das escolas”, bradou, sendo aplaudido pelos militantes. “Bolsonaro ama os homossexuais, mas não podemos aceitar minorias”.

Lázaro foi derrotado no primeiro turno da eleição, quando se candidatou ao Senado na chapa majoritária de José Ronaldo (DEM).

Fontes: Bocão News e Tribuna da Bahia

 

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