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Brasil

Exército serve para tudo, menos proteger quem vive na Rocinha

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Texto lúcido e coerente de jovem escritor e morador da Rocinha -GEOVANI MARTINS, 26 anos

 

Quando vi os tanques de guerra entrando no morro, não pude deixar de pensar no verão, 40º C na sombra, a gente sem água por mais de uma semana, tendo muitas vezes que chegar do trabalho e procurar forças pra buscar água no poço ou numa fonte pra tomar banho, fazer comida, lavar a louça. Nos dias sem luz, aquele calor, aquele suor, o ventilador parado, o medo de estragar a comida na geladeira. Naquele menino de dez anos que começa a flertar com o tráfico enquanto a mãe está no trabalho. Naquele projeto de futebol, surfe, judô, teatro, música, entre tantos outros, interrompidos pela falta de recursos. Fiquei pensando. Nessas horas, onde é que esteve o Governo do Estado do Rio de Janeiro?

Uma coisa é certa, já estamos acostumados a nos virar por conta própria. A arquitetura do morro, desde os becos, vielas e escadas, até as casas, igrejas, mercados, é a maior prova disso. Aquele vizinho que te empresta uma tomada pra ligar a geladeira e preservar seus alimentos, aquela vizinha que te avisa que está caindo água e faz questão de lembrar que não se pode esquecer de encher os baldes; mostram que apesar de tudo, não estamos sozinhos.

Os tanques de guerra subindo, os caveirões passando, continuei pensando: o que realmente motivou essa ação militar tão repentina? Vieram várias respostas na cabeça: o fato da Rocinha estar no caminho entre Gávea e São Conrado, entre São Conrado e Barra, o Rock in Rio, os alunos da Escola Americana, do Teresiano, da Escola Parque sem aula, a PUC fechada, o circo televisivo batizado pelos próprios jornalistas de cobertura completa, enfim, muitas coisas, mas em momento algum, cheguei a pensar que pudesse ser em defesa do morador.

Até porque, qualquer um com um pouco de boa vontade, pode perceber que uma ação militar convocada assim, de uma hora pra outra, sem nenhuma estratégia desenvolvida, e que usa como braço armado soldados que não conhecem a geografia do lugar e tampouco a dimensão do conflito em que estão se metendo, pode servir pra tudo, menos pra proteger o morador.

Nessas horas, é impossível não lembrar da UPP ocupando o morro. No BOPE metendo o pé na nossa porta, revirando tudo, perguntando onde é que arrumamos dinheiro pra comprar nossas coisas, exigindo nota fiscal. Tudo isso por nada, já que a quantidade de armas e drogas apreendidas nesse período foi baixa, e não demorou muito pro tráfico recuperar a mesma força de antes.

Esse filme está se repetindo agora mesmo. Com o menino de treze anos recém chegado do nordeste, que teve a casa invadida por policiais logo depois da mãe sair pro trabalho, e não sabendo responder a tantas perguntas acabou com o braço quebrado. Com os muitos moradores que enviaram fotos para a página Rocinha em Foco, denunciando a ação dos policiais, mostrando suas portas arrombadas, suas casas todas reviradas.

E em meio a tudo isso, ainda somos obrigados a ver, no espaço virtual que usamos pra nos atualizar e de certa forma, cuidarmos uns dos outros, pessoas (a grande maioria utilizando um perfil fake) xingando esses moradores, dizendo que querem denunciar os policiais militares mas não querem denunciar os traficantes. Sim, chegamos ao ponto em que grande parte da população acha super natural comparar a segurança pública com o crime organizado. Ninguém que aponta o dedo tem ideia de como dói ter os direitos violados, passar os dias ouvindo a bala cantar, carregar essa sensação de impotência, e ainda por cima, sair como culpado.

Já que comecei a falar dos comentários que recebemos de fora, não posso deixar passar batido a cobertura ostensiva da televisão, que conseguiu passar um dia inteiro sem nos dar nenhuma informação relevante e ainda faz questão de lembrar a todo momento o quanto estavam sofrendo os cariocas que precisavam passar por aquele pedaço da cidade. O nosso pedaço de cidade.

Nesse mesmo dia em que os tanques de simples: é impossível separar as favelas do mundo, esquecer que elas fazem parte de uma cidade, estado, país, é impossível ignorar seus contextos e tudo o que aconteceu até chegar nesse momento. No entanto, lembrando de tdisse o governador, o chefe de segurança pública, os jornalistas na televisão, os fakes como fotos de militares, concluí que é exatamente isso o que estão tentando fazer desde sempre. Separar a favela do mundo.

GEOVANI MARTINS, 26, morador da Rocinha, é escritor

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Bahia

O fenômeno Lula

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As pesquisas apontam. O mundo reconhece. Os brasileiros imploram. É emocionante falará do cara que virou ideia: O Lula.

Após 4 meses preso político o homem-ideia passa através das frestas das grades e faz o maior estardalhaço na recente história política do país. Se a boca não pode falar; a voz não pode ser ouvida, a imagem não pode ser vista e o cheiro não consegue ir tão longe. O que faz Lula crescer 9 pontos percentuais, conforme as pesquisas, após 120 dias trançados?
Se quem ao arrepio da lei imaginou que prendendo incorporar a ideia de apagaria, fez as contas erradas.

Mesmo com o Programa de Governo mais corajoso das eleições petistas, alinhado com o Desenvolvimento integral do país e com a inclusão de parcela considerável que ainda não faz parte da nação brasileira e retomada do desenvolvimento visto na era petista e a apresentação de reformas de base estruturantes; mesmo assim entre os ricos,, Lula amplia o seu eleitorado de 14% para 20%.no geral passa 30 para 39% no geral é, com a perspectiva de transferência de votos que já coloca seu apoiado no segundo turno das eleições. Mais ainda. Faz o PT ser, de longe partido mais querido do Brasil.

Estamos diante de um fenômeno que embolou a mente dos algozes que fizeram da comunicação uma partida de futebol marrada pelo locutor que torce para o time que perde; de um judiciário que assume publicamente sua opção política, quando a isonomia deve ser um princípio é de um mercado mambembe, que de tudo se faz (chantageia a população, faz análises e notas tentando desqualificar), mas o povo segue o Lula. Os mais atentos já sabem. Lula já ganhou na política ganhará nas urnas. Ganha o Lula ou que ele indicar. Pois, contra fatos tem havido muitos argumentos, mas o povo brasileiro tem argumentado mão forte ainda em favor dos fatos. Lula é um fenômeno.

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Bahia

PROTESTO DOS PROFESSORES DA REDE MUNICIPAL DE ENSINO

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Neste momento nas ruas do comércio, os professores da rede Municipal de Ensino, protestam por melhorias salarias. Adata base para o reajuste salarial é maio e desde abril a APLB-Sindicato, entidade representativa da categoria, entregou a pauta de reivindicações e foram realizadas várias reuniões entre o Executivo Municipal e a direção da APLB. Entretanto, como nenhuma resposta positiva foi apresentada, não restou alternativa, senão a greve!

 

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Bahia

Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB): Água e energia não são mercadorias!

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Trabalhadores percorreram as ruas da cidade de Boninal em marcha denunciando as ameaças que vem sofrendo e realizaram uma Audiência Pública

No dia 24 de julho atingidas e atingidos pela Barragem de Baraúnas/ Vazante realizaram marcha e Audiência Pública no município de Boninal (BA) para denunciar as violações dos direitos humanos que vêm sofrendo.

Atingidas e atingidos organizados pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) percorreram as ruas da cidade de Boninal em marcha denunciando as ameaças que vem sofrendo, a judicialização do processo contra os atingidos e as baixas propostas de indenização feita pela empresa.

“Eles dizem que a gente não produz na terra e que se não saímos da terra vão chamar a Polícia Federal para tirar a gente como que a gente fosse bandido, aqui não tem bandido, somos trabalhador, olha minhas mãos que é puro calo, foram elas que deram sustento pra minha família e agora querem tirar tudo” se indigna Dona Joana Rita.

A barragem que pretende aumentar a disponibilidade hídrica na região, está sendo construída pela Companhia de Engenharia Hídrica e de Saneamento da Bahia (CERB) e atingi os municípios de Seabra e Boninal na Chapada Diamantina. A obra é executada pelo estado da Bahia através Secretaria de Infraestrutura Hídrica (SIHS) em parceria com o Governo Federal por meio do Ministério da Integração Nacional e está estimada em quase R$ 100 milhões.

A Audiência Pública realizada na Câmara de Vereadores de Boninal foi convocada pelo Vereador Zequinha de Oliveira, e teve a participação do Deputado Estadual Marcelino Galo, membro da comissão de Direitos Humanos e Meio Ambiente da Assembleia Legislativa da Bahia; Doutora Ana Carolina da Coordenação de Desenvolvimento Agrário (CDA); Godofredo Lima representando a Companhia de Engenharia Hídrica e de Saneamento da Bahia (CERB); Professor Lauro vereador do município de Seabra e representante da comunidade quilombola da Vazante, atingida pela Barragem; Moisés Borges e Eripes Ribeiro pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

“Defendo que haja um diálogo aberto entre as partes, e que a barragem de Baraúnas, que trará benefícios para a população da região da Chapada Diamantina, não seja um entrave para a manutenção dos modos de vida e economia dos pequenos agricultores. Não podemos permitir que crianças, idosos, jovens e famílias inteiras sejam remanejadas para um espaço sem a devida estrutura que necessitam” afirmou o Deputado Estadual Marcelino Galo.

O ato ainda contou com a solidariedade dos vereadores de Boninal, Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município e organizações parceiras como Sindicato dos Trabalhadores em Água, Saneamento e Meio Ambiente (SINDAE) através de Danilo Assunção e da Central Única dos Trabalhadores (CUT) Elisângela Araújo.

“Queremos um processo de negociação coletiva, é inadmissível a CERB mover uma ação judicial contra duas famílias em uma iniciativa clara de individualizar e criminalizar as negociações. Queremos indenização justa, reassentamento rural como forma de reposição pelos danos causados, assim como garantias de infraestrutura, produção e trabalho, que dê condições de vida adequada para o início de uma nova vida” concluí Moisés Borges do MAB.

Com informações: Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)

 

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